
Medo, vergonha e culpa
Vamos escavar...
Escrever sobre medo, vergonha e culpa não é uma tarefa simples, pois são três freios que todos nós possuímos, fazem parte do nosso comportamento, segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate, os três principais “freios” que orientam nossos comportamentos e nos fazem agir dentro de determinadas barreiras são o medo, a vergonha e a culpa. Algumas pessoas se baseiam tanto nestes freios que se tornam extremamente rígidas, não tem habilidades que os tornam capazes de lidar com situações novas.
Quando analisamos nossas vidas, observamos que o medo, a vergonha e a culpa, fazem parte do nosso desenvolvimento como seres humanos individuais e na sociedade, um exemplo disso é simplesmente termos medo de perder algo de valor, nossa adrenalina é automaticamente disparada quando estamos em perigo, é normal termos vergonha de uma eventual exposição em público ou se sentir culpado devido as consequências dos erros.
O problema é quando esses freios são usados de forma inconsciente ou consciente de uma forma exagerada, com objetivo de exercer o poder de controle, observamos isso acontecer desde as relações familiares, até as relações institucionais, como as empresarias e religiosas, vejamos alguns exemplos:
Em uma relação dita familiar, pais que desejam controlar os filhos impedindo-os de se desenvolverem, ao invés de buscarem ajuda para resolverem seus problemas pessoais, aplicam esses freios de uma forma abusiva nos filhos, enchendo de medo, vergonha e culpa nas situações mais banais, causando diversos traumas, diversos prejuízos.
Recomendo a entrevista da Taryana Rocha (Psicoterapeuta), por ter vivido um relacionamento abusivo com sua mãe até então narcisista, ela fez uma explanação abrangente sobre o tema narcisismo no meio familiar, um tema que precisa ser mais discutido e estudado.
No caso das relações institucionais, o que mais me chama atenção é a relação religiosa, pois partindo-se do princípio que a religião seria um elo entre o ser humano e o divino, seria natural a partir de uma entrega humana, ter como consequência uma relação divina. Vemos diversos exemplos de manifestações transcendentais nos achados arqueológicos, em que podemos observar que os símbolos adotados remetiam a uma relação extra dimensional. Como do achado recente descoberto nos arredores de Jerusalém, em que é possível ver a inscrição "puro por Deus".
O grande problema é como ao longo da história essas relações humanas se tornaram objeto de poder por diversos regimes totalitários.
Infelizmente ao longo do tempo a religião foi muito usada como instrumento de controle, manipulação das massas e interesses mesquinhos.
Vamos observar os principais instrumentos de controle e como os sistemas totalitários usam o medo, a vergonha e a culpa de uma forma totalmente distorcida para atingir seus objetivos mesquinhos:
Medo:
Quando temos medo, nós liberamos adrenalina e essa adrenalina vai causar alterações que nos preparam para enfrentar o perigo. Nós chamamos de reação de luta ou fuga e vai causar muitas alterações no nosso corpo, essas alterações geradas pela reação de luta e fuga envolvem a aceleração do coração, buscando enviar mais sangue aos músculos, que ficam assim preparados para lutar ou fugir. Da mesma forma, acontece uma redistribuição do sangue no corpo, com maior irrigação sanguínea para os grandes grupamentos musculares, levando menos sangue a músculos menores e menos essenciais à luta ou à fuga. Por isso, as mãos, por exemplo, podem ficar mais frias, enquanto o peito e a coxa ficam mais quentes. Outra reação envolve um aumento do suor, garantindo que o corpo fique mais refrescado. Por fim, podemos sentir uma inquietação, uma vontade de correr, gerada por esse estado de prontidão para a defesa, para a luta ou a fuga diante do perigo.
E todo esse processo está relacionado a alguns neurotransmissores liberados nas reações de resposta ao medo, a adrenalina, que vai energizar o corpo e deixar a gente num estado de euforia, de uma sensação agradável, como acontece também no exercício físico. Nós também liberamos dopamina e endorfina, que ajudam o corpo a se manter calmo e anestesiado em uma situação de perigo. A dopamina, em particular, é um neurotransmissor ligado ao prazer, então muitas pessoas gostam de se expor a situações de perigo controladas pra liberar essas substâncias e curtir a sensação.
Saúde RJ - Notícias - Luta e Fuga: as reações do corpo ao medo (saude.rj.gov.br)
Vergonha:
A vergonha seria uma experiência universal para os humanos, e ela envolveria o medo de perda de conexão e vínculo com alguém ou alguma comunidade. Os seres humanos nascem sensíveis a vínculos e conexões, tantos o ponto de vista biológico como cultural. O sentimento de vergonha normalmente surge quando temos medo que algo que fizemos ou deixamos de fazer nos torne indignos de ser aceito ou manter um vínculo com alguém. Em sua pesquisa, Brown (2013) concluiu em sua pesquisa que vergonha seria o sentimento de dor intensa ou experiência de acreditar que somos defeituosos e, isto nos tornaria não dignos de amor e aceitação.
Os temas tipicamente que trazem vergonha, De acordo com a pesquisa de Brown (2013) são: aparência e imagem corporal; dinheiro e trabalho; maternidade/paternidade; família; criação de filhos; saúde mental e física; vícios; sexo; velhice; religião; traumas; estigmas e rótulos.
Vergonha E Culpa | Renato Mancini (mancinipsiquiatria.com.br)
Culpa:
A culpa surge nas seguintes ocasiões: quando nos arrependemos de ter tomado uma determinada atitude e quando assumimos a responsabilidade por algo que não temos controle.
A primeira ocasião é benéfica quando não nos deixamos levar pela culpa. Esse sentimento aparece para nos mostrar que cometemos um erro e precisamos reavaliar a nossa conduta. Ele também nos incentiva a pedir perdão por nossos atos e reatar relacionamentos.
No caso da segunda situação, um exemplo bastante comum é de indivíduos que se salvam de acidentes trágicos. Eles tendem a sentir culpa por estarem vivos e não terem ajudado os demais a se salvarem. Mas, dificilmente poderiam ter feito algo para mudar o resultado da situação.
Há, ainda, uma terceira origem para a culpa. Pessoas com condições psicológicas, como ansiedade e depressão, tendem a sentir mais culpa que outros. A ansiedade patológica, em especial, faz com que as pessoas se agarrem a justificativas irreais de que são culpadas por determinado evento ou emoção.
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é uma das condições que merecem destaque, pois a pessoa com TOC adota muitos comportamentos de culpa. Ela assume a responsabilidade pela segurança e a felicidade dos outros, por acontecimentos tráficos e outros elementos que não pode controlar.
A culpa possui uma característica dominante. Ela assume o controle da vida do culpado, relembrando-o constantemente da razão pela qual deve se sentir assim.
Ele pode desenvolver hábitos inapropriados por conta disso, como evitar determinadas situações e pessoas, não conseguir raciocinar os erros cometidos, e agir impulsivamente na tentativa de se sentir melhor.
A culpa excessiva também afeta a capacidade de tomar decisões do culpado. Por acreditar merecer somente coisas ruins em virtude do que fez, ele faz escolhas que prejudicam a sua carreira, relacionamento e vida pessoal.
O culpado incentiva, ainda, a superprodução do cortisol, hormônio do estresse, sem querer. O excesso de estresse no corpo, por sua vez, causa uma série de complicações para a saúde mental e física. Algumas delas são:
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Insônia;
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Sensação de tristeza;
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Perda ou aumento de apetite;
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Cansaço inexplicável;
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Baixa autoestima;
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Alergias de pele;
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Excesso de sensibilidade;
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Apatia;
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Alterações drásticas no peso;
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Enxaqueca;
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Problemas gastrointestinais;
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Pensamentos turbulentos;
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Sentimento de inferioridade; e
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Queda de cabelo.
A culpa também compartilha muitos sintomas com a depressão, como pensamentos autodepreciativos, desesperança e falta de perspectiva para o futuro. Logo, quem se culpa demasiadamente tem mais probabilidade de desenvolver essas patologias.
A ansiedade é outra condição que possui uma ligação forte com a culpa. O ansioso ajuda a culpa a crescer, praticamente transformando-a em um monstro. Ele remói o passado, tem vergonha de seus erros e sofre por antecedência enquanto espera as possíveis consequências de seus atos.
Como a culpa afeta a saúde mental? - Psicólogo e Terapia (psicologoeterapia.com.br)
Então qual conclusão sobre medo a vergonha e a culpa?
É necessário verificar que esses freios são normais no ser humano, pois servem para proteção e desenvolvimento, o problema é quando fica abusivo, exagerado e insuportável, quando se torna instrumento de poder e de manipulação. Simples assim.
Jesus, que não tem nada a ver com esse "cristianismo" político/religioso que conhecemos, não utilizou dessa estratégia de medo, culpa ou muito menos vergonha, ele simplesmente disse:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve."
Se o fardo está pesado, algo está errado.
Agosto, 2021

